08 February 2018

Hipervulneráveis. Tendências globais de risco para 2018

 

O mundo continuará transitando por um caminho complicado e perigoso durante 2018, cada vez mais perto de um abismo global. Um precipício do qual nunca tínhamos nos aproximado tanto desde os anos mais críticos da Guerra Fria. No entanto, agora estamos imersos em um contexto muito diferente. Provavelmente, os atores que estão por trás das ameaças são parecidos, mas o ambiente mudou. É um quadro em que a mudança climática, a internet e o ciberespaço vieram comandar boa parte das ameaças. Como acontece todos os anos nestas datas, coincidindo com o Word Economic Forum, em Davos, foi publicado o Global Risks Landscape 2018 (Panorama Global de Riscos 2018). Tomamos como base este conceituado relatório para expor as tendências globais de risco.

Nesta ocasião, não encontramos neste estudo elementos realmente surpreendentes, mas uma consolidação das ameaças globais. Se atentarmos para o impacto, nas duas primeiras posições aparecem (tal como em 2017) as armas de destruição em massa e os fenômenos meteorológicos extremos. Na sequência aparecem os desastres naturais, as falhas relacionadas com a adaptação à mudança climática e a crise da água.

No entanto, se olharmos para a percepção da probabilidade, os eventos extremos relacionados com a meteorologia continuam ocupando, por mais um ano, o primeiro lugar, seguidos por: desastres naturais, ciberataques, fraudes massivas de dados e falhas relacionadas com a adaptação à mudança climática. Portanto, as ameaças vinculadas ao meio ambiente e aos elementos tecnológicos são as mais prováveis.

Vamos agora colocar o nosso foco nas ameaças mais prováveis para este ano recém-iniciado.

Um planeta à beira do precipício ecológico

Se olharmos para a matriz do relatório Global Risks Report (Panorama Global de Riscos), do World Economic Forum, podemos observar como todos os riscos relacionados a eventos climáticos extremos, aumento da temperatura, da poluição, entre outros, estão localizados na zona de maior probabilidade e impacto.

No entanto, o verdadeiro desafio sistêmico está na profundidade da interconexão que existe, tanto entre estes riscos ambientais, como entre os riscos de outras categorias, como a crise da água e a migração involuntária.

Os eventos climáticos extremos em 2017 incluíram furacões no Atlântico, o que era incomum. Estes incidentes dão continuidade a uma tendência de eventos climáticos cada vez mais onerosos para as últimas décadas. Dos dez desastres naturais que causaram a maior quantidade de mortes na primeira metade de 2017, oito envolveram derramamentos ou deslizamentos de terra. As tempestades e outros perigos relacionados com o clima também foram as principais causas de migração, com os últimos dados mostrando que 76 % dos 31,1 milhões de pessoas que se deslocaram durante 2016 foram obrigados a abandonar seus lares como resultado de eventos relacionados ao clima.

No ano passado, também vimos numerosos casos de temperaturas extremas.

Nos primeiros nove meses de 2017, as temperaturas foram de 1,1°C acima dos níveis pré-industriais. As leves mudanças estão dando lugar a alterações extremas: durante 2017, registraram-se temperaturas recordes desde partes do sul da Europa até o leste e o sul da África, América do Sul e partes da Rússia e China. A Califórnia teve seu verão mais quente; no final de novembro, os incêndios florestais nos Estados Unidos estavam pelo menos 46 % acima da média de 10 anos e, em Portugal, registraram-se mais de cem mortes relacionadas com incêndios florestais. É importante destacar ainda como o aumento das temperaturas afetou a produção agrícola e provocou desastres na produção, causando fome e outras dificuldades. Acrescentemos ainda a perda da biodiversidade, especialmente em populações de insetos que são essenciais para os sistemas alimentares.

Em 2017, a poluição passou a ser o primeiro problema: a poluição do ar em ambientes internos e externos é responsável por mais de um décimo de todas as mortes por ano no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). É provável que a poluição do ar urbano piore, já que a migração e as tendências demográficas impulsionam a criação de novas megacidades.

A Comissão estima que o custo anual total da poluição para a economia mundial é de 4,6 bilhões de dólares, o equivalente a cerca de 6,2 % da produção.

No ano passado, isso se deu em parte como resultado da evolução na China, em que as ondas de calor mencionadas levaram a um aumento de 6,3 % no consumo de energia, e a seca extrema no norte do país levou a uma mudança na geração de energia hidroelétrica para carvão-de-pedra. Porém, além disso, no ano passado, o presidente Trump anunciou planos para retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris. Destaca-se, portanto, no relatório, o risco de que fatores políticos possam afetar os esforços para mitigar a mudança climática.

Além de enfrentar os desafios ambientais imediatos que nós estamos vivendo, também é preciso focar nos possíveis riscos econômicos e sociais que podem surgir.

Por exemplo, mudanças drásticas na forma de produzir energia podem alterar em grande escala o mercado de trabalho. As mudanças econômicas estruturais nos países e regiões afetados também poderiam trazer a tona os riscos sociais e geopolíticos.

A ciberdefesa. Um esforço em crescimento

Do meio ambiente seguimos para os riscos cibernéticos que se intensificaram em 2017. Os ataques estão aumentando, tanto em prevalência como em potencial disruptivo.

Só em 2016, foram lançados 357 milhões de novas variantes de malware e foram comprados “cavalos de troia bancários” projetados para roubar detalhes de início de sessão da conta por 500 milhões de dólares. Além disso, os ciberdelinquentes têm um número exponencialmente crescente de objetivos potenciais. Os ataques distribuídos de negação de serviço (DDoS) se tornaram comuns, aumentando sua frequência em 140 % somente em 2016. Em 2017, é provável que o objetivo médio de DDoS seja batido 32 vezes durante um período de três meses.

Os custos financeiros dos ciberataques estão aumentando. Um estudo de 2017, que reuniu 254 empresas em sete países, avaliou o custo anual de resposta aos ciberataques em 11,7 milhões de libras por empresa, um incremento interanual de 27,4 %. Espera-se que o custo do cibercrime para as empresas nos próximos cinco anos seja de 8 trilhões de dólares.

Em relação ao tipo de ataque, os chamados ransomware representaram 64 % de todos os e-mails maliciosos enviados entre julho e setembro do ano passado, o que atingiu o dobro de empresas em comparação a 2016. Exemplos notáveis foram o ataque do WannaCry, que afetou 300.000 computadores em 150 países, e do Petya e NotPetya, que causou grandes perdas corporativas. Por exemplo, a Merck, a FedEx e a Maersk reportaram perdas no terceiro trimestre de cerca de 300 milhões de dólares como resultado do NotPetya.

Além do seu custo financeiro, o ataque do WannaCry interrompeu a infraestrutura crítica e estratégica em todo o mundo, incluídos ministérios de governos, ferrovias, bancos, provedores de telecomunicações, empresas de energia, fabricantes de automóveis e hospitais. Portanto, existe uma tendência crescente do uso de ciberataques para agredir governos e setores industriais, o que faz temer que, no pior dos casos, poderia ser desencadeado um colapso nos sistemas que mantêm as sociedades em funcionamento. Acredita-se que muitas dessas ações são patrocinadas por diferentes Estados.

Por fim, o impacto final do WannaCry foi relativamente baixo, mas evidenciou a vulnerabilidade de uma vasta gama de organizações.

Somamos a tudo isso o aumento da ciberdependência devido a interconexão digital de pessoas, coisas e organizações. Ou seja, mais hiperconectados, mas também mais hipervulneráveis. Razões que convertem o ciberespaço num novo cenário onde se resolvem as grandes crises globais.

Cada vez mais desiguais

Uma das conclusões mais chamativas do Global Risks Landscape 2018, do World Economic Forum, é a importância reduzida dos riscos econômicos. Isto dá continuidade à tendência observada no relatório nos últimos anos. Os riscos econômicos se dissiparam bruscamente, sendo cada vez mais substituídos pela preocupação com os riscos ambientais. Os últimos resultados mostram um momento de melhora na economia mundial, ainda que relativamente modesto. O Fundo Monetário Internacional (FMI) espera um crescimento global do PIB de 3,6 % para 2017, frente aos 3,2 % em 2016. A recuperação está em andamento em todas as principais economias, o que leva a uma forte melhora no sentimento.

Mas isso é otimismo ou complacência? Certamente, há razões para sermos cautelosos: não é preciso ir muito longe para enxergar os sinais de tensão econômica e financeira. O ano passado trouxe novas evidências de problemas econômicos crônicos, particularmente relacionados com as receitas e a desigualdade. Em seu último Global Wage Report (Relatório Global de Salários), a Organização Internacional do Trabalho destacou que o crescimento dos ganhos mundiais desacelerou desde 2012. Exigiu, entre outras coisas, um maior uso da negociação coletiva para reverter esta tendência. Se por um lado a desigualdade mundial está diminuindo, a desigualdade dentro do país é um problema cada vez mais corrosivo em muitos lugares. Segundo o FMI, nas últimas três décadas, 53 % dos países sentiram aumento da desigualdade de receitas, com esta tendência particularmente pronunciada nas economias mais desenvolvidas. Além disso, as tensões econômicas atuais podem se transformar em problemas a longo prazo. Os altos níveis de endividamento pessoal, junto com as provisões de poupança e pensões inadequadas, são motivos para que as frustrações se tornem mais profundas nos próximos anos.

A importância da desigualdade ficou bem evidenciada no relatório quando os entrevistados destacaram os riscos que estão mais interligados. O emparelhamento mais citado foi “consequências adversas dos avanços tecnológicos” e “alto desemprego ou subemprego estrutural”. A automatização foi uma força disruptiva no mercado de trabalho e é provável que seus efeitos sejam duradouros, na medida em que as novas tecnologias se difundam na economia global. Num futuro previsível, pode-se esperar que a automatização e a digitalização pressionem os níveis de emprego e de salários, e contribuam para aumentar as receitas e a riqueza da parte superior da distribuição.

Não deveríamos ficar surpreendidos se isto vier a ter efeitos políticos e sociais mais amplos. De novo, a tecnologia e a 5ª Revolução Industrial nos impulsiona para novos cenários de risco.

Riscos de conflitos sociais

Os enfrentamentos relacionados com a identidade e a comunidade continuam provocando deslocamentos políticos em muitos países e são cada vez maiores, alimentando as tensões transfronteiriças e no interior dos estados.

No último relatório, a polarização da sociedade caiu levemente nos rankings dos entrevistados sobre os principais fatores subjacentes dos riscos globais –substituídos entre os três primeiros pela crescente dependência cibernética–, mas continua sendo uma força politicamente desestabilizadora. Isto, talvez, seja ainda mais evidente no Reino Unido e nos Estados Unidos. Ambos os Estados registraram resultados democráticos dramáticos contra o establishment em 2016. O Reino Unido está lutando para enfrentar as tensões que se desencadearam pelo Brexit. Nos Estados Unidos, o aprofundamento da polarização debilitou, entre outras coisas, o debate democrático, aumentado a confiança dos movimentos de extrema direita.

Na Europa, os temores sobre a ascensão da extrema direita foram aliviados com a vitória de Emmanuel Macron nas eleições presidenciais francesas de maio de 2017, mas talvez com o risco de fomentar a complacência sobre a estabilidade política da região. Tal como destacaram as eleições na Alemanha e na Áustria. No fim de 2017, os partidos de extrema direita continuaram crescendo em força e influência em muitos países europeus.

Em termos mais gerais, as questões de cultura e identidade estão causando tensão política entre um número crescente de países da União Europeia, incluídos Polônia, Hungria e, de diferentes maneiras, na Espanha (obviamente com a Catalunha), ainda que o relatório não a cite explicitamente.

A polarização entre grupos com diferentes heranças culturais ou valores parece que continuará sendo uma fonte de risco político nos países ocidentais em 2018 e nos próximos anos.

Rumo a um poder cada vez mais personalizado

A tendência em direção a um poder cada vez mais personalizado se dá em meio a uma volatilidade geopolítica crescente. A escalada dos riscos geopolíticos foi uma das tendências mais pronunciadas de 2017, particularmente na Ásia, onde se pode dizer que, com a crise da Coreia do Norte, o mundo está mais perto do que esteve durante décadas do possível uso de armas nucleares. Há muitos outros problemas que podem surgir em todo o mundo, especialmente no Oriente Médio, onde um número cada vez maior de forças desestabilizadoras poderiam levar ao início de novos conflitos militares, além dos da Síria e do Iêmen.

Quando é citado no relatório sobre as trajetórias de risco em 2018, o nível de preocupação é claro: 93 % dos entrevistados espera uma piora de “confrontos / atritos políticos ou econômicos entre as principais potências” neste ano.

Os riscos geopolíticos são agravados pela contínua diminuição do compromisso com o multilateralismo baseado em normas. Em 2017, o presidente Trump cumpriu algumas de suas promessas unilaterais de campanha, retirando os Estados Unidos tanto do Acordo de Paris sobre Mudança Climática como do Acordo Comercial da Associação Transpacífica. Ainda que os Estados Unidos não tenha se retirado do acordo desenhado para deter o programa de armas nucleares do Irã, o Plano de Ação Integral Conjunto, o presidente Trump apontou sua insatisfação ao negar que o Irã esteja cumprindo com o combinado.

author:
Luis Serrano
Diretor da Área de Crises na LLORENTE & CUENCA
Graduado em Jornalismo, é um dos maiores especialistas da Espanha em gestão da comunicação em situações emergenciais e de catástrofes, bem como no desenvolvimento de protocolos de atuação de crises em redes sociais. Durante 17 anos, foi chefe de imprensa do Centro de Emergências 112 da Comunidade de Madri, onde participou ativamente no tratamento de situações relevantes, como o atentado de 11 de março em Madri. Interveio em mais de 100 sinistros industriais, acidentes com múltiplas vítimas, acidentes em centros de lazer, crises sanitárias, etc. Fruto de suas experiências é o livro 11 M y otras catástrofes. La gestión de la comunicación en emergencias (11 M e outras catástrofes. A gestão da comunicação em emergências), do qual é autor. Possui também uma vasta experiência docente no campo da emergência e da gestão de crises. Como jornalista, trabalhou durante sete anos nos serviços informativos da Onda Cero.
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