03 October 2018

Compliance e reputaçao na era da governança corporativa

Desde o início, a evolução do compliance tem sido marcada por escândalos de corrupção. Foram essas crises que levaram à implementação de novos regulações e obrigações legais. Em suas origens, os programas de compliance foram implantados para eximirem-se de responsabilidade e, em quase todos os casos, por obrigações legais externas. No entanto, ao longo do tempo, e especialmente após os casos de empresas que sofreram escândalos, tanto os programas de compliance e os códigos de conduta, assim como a implementação dos compliance officers tornaram-se obrigatórios. Inclusive, retornaram com um novo propósito diferente do original: recuperar a reputação institucional.

Devemos identificar os desafios, os riscos e transformá-los em oportunidades. O compliance é uma oportunidade para que as empresas sejam geridas de maneira mais transparente e eficiente. É uma área que avança rápido e está ganhando terreno.

Matthias Kleinhempel, professor especialista do Centro de Governança e Transparência do IAE, da Universidade Austral[1], assinala desafios que mesmo o compliance deve enfrentar, uma vez que sua eficácia é muito difícil ou impossível de medir. Apresenta dois grandes desafios, especialmente no caso das transnacionais. O primeiro está relacionado à dificuldade de mapear o risco ético e de conformidade.

É necessário ter um mapa de risco efetivo, pois é o que permite que os recursos sejam alocados de maneira correta e resulta em um bom indicador da adoção dos códigos por parte da liderança da empresa. Este último é crucial, já que depende do comportamentos e aspectos psicológicos e culturais, com ou sem atos indevidos.

O segundo grande desafio tem a ver com o compliance de terceiros ou fornecedores. As investigações de cadeias de valor de terceiros são complicadas, assim como aquelas relacionadas a atividades terceirizadas. De acordo com Kleinhempel, em investigações conduzidas a partir de entrevistas com os compliance officers, 70% deles não sabem o que está acontecendo nas cadeias de suprimentos. A auditoria deve ser reforçada, assim como ser realizado o monitoramento de rotina do conjunto de fornecedores. Também é possível promover treinamentos na área de comunicação e transparência, bem como estabelecer cláusulas de rescisão em caso de violações éticas.

Por outro lado, há alguns aspectos observáveis que são importantes destacar. Um deles tem a ver com a importância que o responsável pela conformidade está adquirindo nos países da América Latina e, particularmente, na América do Sul. Agora, segundo Kleinhempel, 30% reportam diretamente ao CEO ou ao conselho, quase 50% deles participam das decisões estratégicas das empresas e podem influenciar e alcançar mudanças no modelo de negócio quando o consideram arriscado. Ao todo, 50% destes se reúnem periodicamente com os CEOs, e 60% com o Conselho, a cada trimestre do ano.

Segundo Kleinhempel, encontramos duas tendências principais que devemos observar no compliance. A primeira é a criação de uma autêntica cultura de compliance, baseada na ética. Não importa quão bons sejam os procedimentos implementados, uma vez que eles serão ineficazes se não criarmos uma verdadeira “cultura de compliance” na organização, que liga o vértice executivo da empresa à base geral de colaboradores.

Cerca de 80% dos responsáveis pela conformidade consideram que a tecnologia tem um grande impacto no compliance. O Big Data e a Data Analytics, permitem uma melhor segmentação, melhor monitoramento de riscos 

Como há cada vez menos incentivos guiados pela lei, o compliance baseia-se mais em princípios do que em regras. Mais do que cumprir normas e regulamentos, trata-se de como as empresas tomam boas decisões em situações difíceis. Portanto, a decision making, os princípios éticos e a liderança adquiriram muita relevância. Os grandes escândalos dos últimos anos se deram, principalmente, em razão de problemas e falhas na liderança ética. Por essa razão, os programas de compliance devem ter como público alvo aqueles executivos e colaboradores que precisam de orientação e ajuda em casos de tentação ou, até mesmo, extorsão. O compromisso do conselho é fundamental, pois eles decidirão a cultura da empresa.

Os treinamentos de compliance provaram ser ineficazes e chatos. A educação deve acontecer, cada vez mais, diante dos dilemas e de situações difíceis a enfrentar. Essas circunstâncias admitem que as empresas operam em uma área cinzenta e que têm problemas difíceis de resolver e não há solução correta. As companhias devem ir além do compliance e enxergar o comportamento humano para que cumpram sua função de prevenção.

Uma segunda grande tendência tem a ver com a tecnologia. Muitas companhias estão atrasadas e comprometidas com uma grande quantidade de dados. Cerca de 80% dos responsáveis pela conformidade consideram que a tecnologia tem um grande impacto no compliance. O Big Data e a Data Analytics, por exemplo, permitem uma melhor segmentação, melhor monitoramento de riscos e melhor identificação das necessidades dos executivos, a fim de proporcionar uma educação mais ad hoc de suas atividades.t

O compliance teve início em uma abordagem legal. Posteriormente, a ética foi incorporada e, finalmente, hoje se utiliza uma abordagem a partir da ótica do comportamento

A revolução digital está impondo novas formas de se relacionar dentro e fora da empresa. Cada vez mais pessoas trabalham em nuvem, em plataformas digitais que eliminam camadas de burocracia e de gerenciamento. Também é crescente o número de empresas que deslocam equipes ou unidades de negócios para torná-los mais ágeis e libertá-los da rigidez das grandes corporações. Da mesma forma, novos riscos e responsabilidades inerentes ao uso de algoritmos na análise de dados e no uso de inteligência artificial também surgem. Sem dúvida, existem desafios éticos e legais que dizem respeito diretamente à corporate compliance, além da questão da proteção de dados. É essencial que as áreas de Risco e de compliance comecem a gerir, em seu campo de competência, esse mundo cibernético que se apresenta de maneira inevitável.

O compliance teve início em uma abordagem legal, que então parecia ineficaz, mas que fornecia ferramentas e uma estrutura para uma melhor gestão e uma melhoria na reputação das empresas. Posteriormente, a ética foi incorporada e, finalmente, hoje se utiliza uma abordagem a partir da ótica do comportamento. Muitas vezes os programas já não se chamam apenas de compliance, estão sendo renomeados, pois se concentram mais em aspectos de integridade e ética do que em aspectos unicamente jurídicos.

authors:
Gonzalo Carranza
Diretor Sênior da LLORENTE & CUENCA no Peru
Jornalista de profissão, Carranza tem especialização em economia. Além disso, possui mestrado em Administração de Empresas pela Universidade Adolfo Ibáñez. Antes de ingressar na empresa, trabalhou como editor-chefe do Caderno Economia e Negócios no El Comercio, o jornal mais importante do Peru. Também atuou como Gerente de Imprensa do Banco de Crédito do Peru (BCP); Gerente Editorial da Editora Planeta Peru; Editor-Geral da Revista G de Gestão, do grupo El Comercio; e Analista Sênior da Semana Econômica.
Francisco Hevia
Diretor Sênior de Comunicação Corporativa da LLORENTE & CUENCA
Licenciado em Publicidade e Relações Públicas pela Universidade Complutense de Madri, possui mais de 20 anos de experiência em comunicação, tanto na área de consultoria como corporativa. Entre 2000 e 2007, fez parte da equipe da LLORENTE & CUENCA para depois integrar o Grupo Siro, no cargo de Diretor de Comunicação e Recursos Humanos. Nos últimos três anos ocupou a direção de Comunicação e RSC da Calidad Pascal. Atualmente, é conselheiro independente do Grupo José María e presidente da Associação de Diretores de Responsabilidade Social Corporativa (DIRSE).
Denise Ledgard
Advogada formada pela Pontifícia Universidade Católica do Peru
Especialista e Consultora em questões de políticas públicas, gestão pública e combate à corrupção. Mestre em Direito pela Universidade de Londres (LL.M.) e Mestre em Políticas Públicas (MPP) pela Escola Goldman de Políticas Públicas da Universidade da Califórnia, Berkeley. Estagiou em Chevenning (UK) e Fulbright (EUA). Professora de Políticas Públicas e Gestão Pública da Pontifícia Universidade Católica do Peru. Até dezembro de 2017, trabalhou como Chefe do Gabinete de Assessores do Ministério da Cultura do Peru. Denise ocupou vários cargos públicos, entre os quais o de Diretora Executiva do Projeto Lugar de Memória, Tolerância e Inclusão Social (LUM), Coordenadora de Política para Modernização do Estado e da Secretaria da Administração Pública; Defensora Adjunta da Administração Estatal da Defensoria do Peru; Adida Legal especial na Embaixada do Peru no Japão para o caso de extradição do ex-presidente Fujimori, entre outros.
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