03 January 2019

A América Latina aposta por mais democracia

Introdução

A América Latina viveu um ano político intenso. As cinco eleições presidenciais que se realizaram na região propiciaram a chegada ao governo de líderes políticos de diferentes tendências, de Jair Bolsonaro a Andrés Manuel López Obrador. Apesar das circunstâncias específicas de cada país, uma mensagem parece ter ficado clara: a América Latina não se situou à margem das principais correntes políticas do resto do planeta. O que não é, em si, uma má notícia, e sim uma evidência do processo de convergência e de integração que se produziu frente ao resto do mundo desenvolvido. Neste documento analisamos os acontecimentos de 2018 e os principais desafios que a região enfrentará no ano que acaba de começar.

Claudio Vallejo, Diretor Sênior Latam Desk Europe em LLORENTE & CUENCA.

Há um ano, a esta altura, a grande incógnita consistia em saber como a América Latina enfrentaria um ciclo eleitoral que, em 2018, incluía a realização de cinco eleições presidenciais de enorme transcendência para a região. Costa Rica, Paraguai, Colômbia, México e Brasil escolheram novos chefes de estado, num clima global caracterizado por tensão.

O auge dos movimentos populistas e nacionalistas ameaçava uma ordem internacional, à qual a América Latina foi incorporada tardiamente, mas em condições de igualdade, e com grande determinação. As circunstâncias eram diferentes e específicas em cada país, mas 12 meses depois, a mensagem ficou clara: a América Latina não se situou à margem das principais correntes políticas do resto do mundo.

As primeiras eleições presidenciais celebradas foram as que, no  mês de janeiro, levaram à presidência da Costa Rica o ex-ministro Carlos Alvarado Quesada. Este teve que fazer frente aos crescentes problemas de segurança e a crise fiscal que atravessa o país mais estável e mais próspero da América Central, junto com a difícil gestão da crise migratória originada pela situação de crise da vizinha Nicarágua.  Os próximos anos serão decisivos para o país, que ou consolida o seu modelo, e a sua situação de excepcional estabilidade na região centro-americana, ou terminará contagiado por todos os problemas que afetam os países vizinhos.

O Paraguai oferece uma visão da outra face da moeda na região. Um país historicamente pobre e politicamente instável, que, no entanto, evidencia há vários anos um crescimento estável, atraindo uma posição discreta, mas efetiva. Em abril, Mario Abdo Benítez, do histórico Partido Colorado, venceu as eleições, tomando posse como presidente do país no mês de agosto.

“O Paraguai oferece uma visão da outra face da moeda na região. Um país historicamente pobre e politicamente instável, que, no entanto, evidencia há vários anos um crescimento estável, atraindo o investimento desde uma posição discreta, mas efetiva. “

O êxito da série televisiva Narcos ilustra bem a profunda associação da Colômbia com o narcotráfico e a violência. Durante a década de 1990, o país esteve à beira da falência do estado, abatido pela violência dos cartéis e dos movimentos de guerrilha. É importante ter presentes estes acontecimentos, para apreciar a extraordinária transformação que a Colômbia experimentou em menos de duas décadas. O narcotráfico continua sendo um problema, mas já não é dominado por grandes organizações, com capacidade para subjugar o aparelho do próprio estado. O salto econômico também foi espetacular.

Iván Duque, o candidato próximo da corrente representada pelo ex presidente Álvaro Uribe, venceu em junho o segundo turno contra o ex-prefeito de Bogotá Gustavo Petro. O presidente Duque mostra se, desde então, mais conciliador com o seu predecessor e com a sua gestão do processo de paz.

Além disso, o segundo turno eleitoral demonstrou, mais uma vez, a enorme dificuldade que os políticos de esquerda têm, na América Latina, para convencer a maioria do eleitorado. As acusações lançadas pelos seus rivais, relacionadas com o seu ideário “chavista”, e com o caráter populista dos seus projetos, não são inócuas na região. Diariamente, as ruas evidenciam o desespero de um povo que procura fugir da miséria e da violência. Enquanto não se romper este vínculo estabelecido entre a esquerda regional e o chavismo, será difícil que esta consiga vencer quaisquer eleições.

O México foi uma exceção, ao possuir uma dinâmica própria, mais dependente dos EUA do que dos seus vizinhos do sul. Uma situação que demonstra que não mudará com a chegada de Andrés Manuel López Obrador (AMLO) ao poder, como parece indicar a agenda política das primeiras semanas do seu mandato.

Os seus objetivos estão centrados na política interna, na redução da pobreza que afeta mais de 50 milhões de mexicanos, e em acabar com a violência generalizada e crescente, que tem a sua principal origem no narcotráfico e nas batalhas entre os diferentes cartéis. López Obrador é consciente de que são estes problemas de fundo que o conduziram ao poder, e por isso concentrará os seus esforços em acabar com eles.

O medo do contágio das políticas populistas parece ter produzido resultado no Brasil. A crise econômica uniu-se rapidamente no Brasil à uma crise política, que levou a destituição da presidenta Dilma Rousseff, e, posteriormente, uma crise institucional e social. Os escândalos de corrupção relacionados com a empresa estatal Petrobras assombraram um país que era tido como um exemplo no combate à pobreza, dentro das margens políticas que o sistema de economia aberta e do livre mercado permitia.

Este contexto de depressão, polarização e delinquência crescente foi aproveitado pelo ex-militar Jair Bolsonaro para conseguir uma vitória eleitoral, tanto no primeiro como no segundo turno. Bolsonaro é um veterano da política brasileira, que se apresentou ao eleitorado como um outsider, que não pertence ao que ele próprio denomina de elite corrupta de Brasília.

As mudanças produzidas como resultado dos processos eleitorais unem-se com outras, produzidas em países como o Peru e a Argentina. O presidente peruano, Pedro Pablo Kuczynski, demitiu se para evitar um segundo julgamento político, que conduziria inevitavelmente a sua destituição, por um caso de corrupção ocorrido quanto exercia as funções de ministro.

O ano 2018 foi especialmente intenso na Argentina. A um ano das eleições presidenciais em que Mauricio Macri se apresenta à reeleição, a situação é certamente complicada. Apesar das promessas e das expectativas, Macri e a sua equipe não foram capazes de controlar os desequilíbrios macroeconômicos e financeiros herdados. Num discurso dramático, o presidente anunciou a solicitação de um empréstimo, ampliado, ao Fundo Monetário Internacional, para conseguir sustentar a economia do país.

“Este contexto de depressão, polarização e delinqüência crescente foi aproveitado pelo ex-militar Jair Bolsonaro para conseguir uma vitória eleitoral, tanto no primeiro como no segundo turno.”

Corre pela América Latina um lamento, que serve como um amargo resumo do ano político que deixamos para trás. O que Simon Bolívar não logrou unir, a construtora brasileira Odebrecht, e a sua rede regional de subornos, conseguiu: fez cair presidentes e ministros. Mas, sobretudo, agravou a histórica desconfiança dos latino americanos frente às suas instituições, que continua a ser um dos grandes desafios da região.

Apesar de tudo, é possível ter uma conclusão positiva. Com a dramática exceção da Venezuela, a região latino-americana foi cenário de vários processos eleitorais que se realizaram com normalidade e transparência. A região sobreviveu à uma crise múltipla, com as armas de uma democracia que, depois deste ano eleitoral, se consolidou como o caminho para o progresso da América Latina. 

Este artigo foi elaborado pela equipe de análise da LLORENTE & CUENCA.

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